Dicas, inspiração

A Fotografia Vai Acabar – e a Culpa Pode Ser Sua!

Antes que você pense “Ó, mais um título polêmico pra eu clicar”, te tranquilizo: na verdade, não é a fotografia que vai acabar, é o fotógrafo. Ficou mais tranquilo? Espero que não, porque eu fiquei bem desesperado. Não acredita em mim? Tudo bem. Vamos aos fatos, Meritíssimo – e se você estiver disposto para entender o processo posso te apresentar uma proposta de solução.

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Via Skeeter em skeeterskinwalker.com

Um rápida dose de história

Você certamente sabe como a fotografia surgiu, certo? Niépce começou experimentos com heliografia; Daguerre o sucede e cria em 1835 o primeiro processo fotográfico – modestamente batizado de daguerreotipo. Mas você sabia que os conceitos físicos e químicos que levaram à descoberta da fotografia existiam deste o século XVIII?

Invenção x Demanda Social

A fotografia surgiu por uma demanda social criada pela revolução industrial. A sociedade começou a se desenvolver mais rapidamente, logo, surgiu a necessidade de transmitir informação na mesma velocidade. Ou seja, não bastava a tecnologia, era necessário existir uma demanda social por essa inovação tecnológica.

De volta ao futuro

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Se você é um leitor atento, deve ter feito o link: na nossa sociedade, a demanda por informação é muito mais rápida do que no século XIX. Antes de entrar nesse assunto, vamos falar do futuro (?). Encontre o erro da sentença: o Google self-driving car, o carro autônomo do Google, vai substituir o motorista tradicional.

Resposta: o tempo verbal. O Google self-driving car não vai substituir, ele já está substituindo. Desde 2013, ele tem autorização para rodar na Califórnia – e segundo o Huffington Post, pode se popularizar antes do que você pensa.

E o que isso tem a ver com fotografia?

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Entrei na faculdade de jornalismo pensando “preciso de uma profissão que jamais possa ser substituída por máquinas” – eu tinha um medo terrível desde uma aula na oitava série sobre mecanização da agricultura. Aposto que você pensa o mesmo sobre fotografia. Você deve estar dizendo “um robô pode dirigir mas jamais fotografar”. Sou obrigado a te avisar: este é o momento pílula azul ou vermelha do texto então eu vou entender se você quiser parar de ler aqui e continuar sua vida em Zion. Mas se escolheu a pílula azul, precisa ir até o final.

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A Casa das Máquinas

Um robô pode dirigir porque esta é uma tarefa linear, estruturada e programada. Ou seja, depois de uma etapa vem a seguinte; cada etapa pode ser repetida várias vezes; no final você vai prever o resultado. Pense por um instante, quantas atividades no mundo são lineares, estruturadas e programáveis?

No meu último semestre de faculdade, um professor apresentou um algorítimo que pode escrever notícias a partir de dados – e a Forbes já o utiliza há algum tempo. Pronto, você já deve saber o que aconteceu com meu plano para ser insubstituível, né? O jornalismo segue um padrão de escrita chamado Lead e “Pirâmide Invertida”. Esse estilo de texto também é herança da Era Industrial, ou seja, é linear, estruturado e programável.

Segundo um dos pioneiros contemporâneos no ensino de criatividade do Brasil, Murilo Gun, “a cada dia que passa nós melhoramos a capacidade de linearizar, estruturar e programar problemas. Em contrapartida, as máquina ficam melhores em resolver problemas que não são lineares, repetitivos e programáveis”. O resultado dessa equação é simples: em um futuro próximo,  seremos menos indispensáveis em diversas tarefas conhecidas hoje.

Oxford: algumas profissões podem desaparecer

Um paper científico de Oxford escrito por Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne mostra qual a probabilidade algumas profissões para a automação. A que sofre mais riscos de automação é telemarketing – você deve estar agradecendo, não é? Mas, segundo o estudo, a probabilidade de automação do telemarketing é a mesma para o “Photographic Process Workers” – uma espécie de termo genérico para Editor de Fotos. Antes de se perguntar como um editor de fotos pode ser automatizado, pergunte-se o porquê.

O futuro já chegou mas não para todo mundo

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Você deve estar na parte da negação. “Mas editor não é fotógrafo. Isso não vai acontecer com a gente”. Se quiser para a leitura para beber um copo d’água, eu entendo. Foi difícil, pra mim, aceitar, mas a automação da fotografia já começou. As notícias sobre os drones autônomos não são novas. A Helico Aerospace Industries criou um drone autônomo que pode seguir esportistas e fazer cliques impressionantes, quase impossíveis para um fotógrafo – e não, esse não é o primeiro desse modelo lançado.

E não é só esportes. O mercado também está pensando no usuário comum. A Nixie é a primeira câmera de pulso que voa – criada por um físico e uma engenheira do (adivinhe) Google. Este drone pessoal pode ser controlado pelo celular – assim é capaz de fazer um retrato aéreo do usuário e voltar sozinha para sua mão. Imagine as possibilidades.

Até o startups brasileiras estão nessa onda – e com requintes de crueldade para os fotógrafos e filmmakers. Bruno Gregory, Marcelo DoRio e Marcio Saito criaram uma câmera com um sensor de 8MP que grava vídeos e edita os melhores momentos. A Graava tem chips embutidos que variam entre o sensor de luminosidade, dois microfones, acelerômetro, Bluetooth e GPS e também é compatível com sensores de terceiros para medir a frequência cardíaca – e registrar a emoção.

Tecnologia exponencial

Um consolo é imaginar que essas tecnologias são caras e vão demorar para se popularizarem. Ledo engano. O desenvolvimento da tecnologia é exponencial. Existe uma lei cunhada por Gordon Moore que prova como em 18 meses a tecnologia dobra de qualidade e mantém os mesmos preços – ou até mesmo mais baixos. Para você ter uma ideia, há 43 anos, homem chegava à Lua com computador de 2 kb de RAM – o Iphone 6s tem 2 mil vezes essa capacidade.

A fotografia mudou

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A frase “a fotografia mudou” já virou clichê. Ouve-se e repete-se isso como um mantra desde os tempos que a Kodak lançou sua primeira câmera por $5. Tanta coisa aconteceu que sequer cabe nesse texto mas mesmo assim nós repetimos: a fotografia mudou. Não é apenas a fotografia que mudou, segundo Tiago Mattos, futurista da Perestroika, o mundo é que está mudando.

Tiago diz que estamos em um processo de mudança e é difícil avaliar os impactos porque o processo apenas começou. Em seu Livro, VLEF ele alega:

 

“Não estamos passando por uma era de mudanças. Estamos passando por uma mudança de era. Isso, que parece um simples jogo de palavras, dá uma dimensão mais precisa do fenômeno. Não estamos mudando de rua, de bairro, de cidade, de país, de planeta. Estamos mudando de universo. Estamos diante de uma revolução. E uma revolução muda absolutamente tudo.”

É possível evitar a mudança?

Se você viu a briga entre a Uber e o lobby das empresas de táxis sabe que as mudanças são variáveis que difíceis de mudar. Às vezes elas demoras, mas sempre chegam. Antes de vender sua câmera e abrir uma loja de brigadeiros gourmet, quero te dizer pra não desistir.

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Uma Nova Esperança

Segundo o Paper de Oxford, existe uma esperança. As atividade que estão mais longe de serem automatizadas são as que exigem habilidades intrinsecamente humanas. Duas delas caem como uma luva para fotógrafos, a Creative Intelligence, que segundo Murilo Gun pode ser definida como a originalidade e habilidade de ter ideias incomuns ou a capacidade de desenvolver formas criativas de resolver um problema ou um assunto; e Social Intelligence, que Gun define como a parte humana de perceber, sentir a reação e compreender as pessoas.

Presos no Labirinto

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Mas a fotografia tem sido tudo menos criativa e socialmente inteligente nos últimos tempos. Quantas vezes nos importamos mais com a quantidade de likes da foto no facebook do que com captar o momento, contar uma história ou registrar sentimentos? Você se preocupa mais com criar uma experiência ou prestar um serviço? Sua maior preocupação é comprar uma nova câmera ou entender uma nova linguagem? Você passa mais tempo estudando expressão e significado ou olhando foto de outros fotógrafos?

Encare os fatos. Se bem configurada, sua câmera fotometra e foca melhor do que você há tempos. Nossa única vantagem é criar – e isso é tudo que a maioria dos fotógrafos deixa de lado.

Você é um dos sobreviventes?

“Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir” (Mark Twain)

A frase de Mark Twain é definitiva. Sempre penso nela como uma alerta. Por essas e outras busco trocar ideias com fotógrafos que acredito estarem longe da maioria. Por isso listei três ideias com profissionais brasileiros da fotografia que estão do outro lado.

O fim dos serviços fotográficos

Há algum tempo, o mercado americano já discute o fim dos fotógrafos que prestam serviços. Um brasileiro pensa o mesmo e criou sua forma de fazer diferente. Em entrevista à Photos, Allan Kaiser é pontual: “…quem vai em um casamento fazer um serviço está com os dias contados (…) Você precisa ser muito mais do que um simples prestador de serviço”.

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Reprodução/Facebook

Na última vez que falei com Allan sobre isso ele me mostrou suas últimas impressões de fotos de casamento. Perguntei o porquê do tipo de papel, formato e outros detalhes técnicos e ele simplesmente explicou que queria algo que as pessoas pudessem manusear exatamente como ele fazia com as fotos de família. Ou seja, não estava entregando fotos e sim uma experiência.

Alma de Fotógrafo

Em um Workshop, o professor Oswaldo Coimbra alertou para os aspirantes a jornalistas: “na maioria das vezes em que o seu texto está ruim, o problema não é seu texto, é você!”. Coimbra explica que a percepção é o primeiro passo para criar, mas você só percebe o que conhece – ou reconhece no mundo o que está em você. Na fotografia, nada poderia ser mais sincero.

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Reprodução/Facebook

Por isso eu sou fascinado pelo trabalho da Rafaela Zakarewicz e do Diogo Ramos. Juntos eles criaram o Alma de Fotógrafo. Para eles “todo trabalho artístico vem da alma e vai para o mundo. Mas para que o artista possa criar, o fotógrafo se realizar e o empresário prosperar, é preciso encontrar um equilíbrio entre razão e emoção.”

Experiência vs Produto

A tendência da fotografia é oferecer experiências, não produtos. A Kodak não faliu porque as pessoas pararam de imprimir fotos e a Printstagram é a prova disso. Segundo o futurista Ian Person, o futuro será baseado na “economia do cuidado” e pouca gente cuida melhor dos seus clientes do que um fotografo retratista chamado Juliano Coelho.

Juliano Coelho
Reprodução/Facebook

O retratista explica que começou a se dedicar exclusivamente à fotografia de mulheres para “poder ajudar as pessoas, mostrar o quanto uma mulher pode se sentir linda do jeito como ela é, sem precisar se comparar com revistas e afins”. O resultado fica claro nos negócios, mas acima de tudo na relação com os fotografados, Juliano diz não ter clientes e sim amigas.

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Reprodução/ Cláudia Regina

Feminista, fotógrafa e atualmente em ano sabático, Cláudia Regina foi uma das pioneiras em questionar o padrão “produto” na fotografia no mercado brasileiro. Também retratista de mulheres, ela conclui “faço fotos cruas e simples, sem produção de revista e sem truque de photoshop. Quero captar uma essência de mulher. E quero que ela se reconheça com alegria nessa imagem. Sem tabus”. Cláudia criou um conceito próprio chamado Direção Afetiva – em alguns casos leva um dia inteiro para produzir um ensaio. Participei efetivamente de uma ensaio com essa direção e o resultado é incrivelmente intimista e original.

Aprender a Criar: criatividade como uma forma de inteligência

Quando percebi tudo isso minha resposta natural foi procurar uma solução viável – porque a fotografia é uma extensão da minha personalidade e não apenas um ganha pão. Assim comecei meus estudos de criatividade. A Criatividade é tipo o Obi-Wan-Kenobi em o Retorno de Jedi: nossa única esperança. Ainda existem muitos mitos e enganos sobre criatividade. Tem gente que pensa que é um dom – e que jamais pode ser desenvolvido. Há os que acreditam que alguns criam e outros replicam. Mas a criatividade é uma habilidade – ou melhor, um tipo de inteligência.

Fotografando e ensinando fotografia, percebi que, para aprender a editar, você precisa aprender a fotografar – e é impossível realmente aprender isso sem saber criar. O Ato Fotográfico, a Pós-produção e a Criatividade são um triângulo expressivo onde uma das partes depende da outra para se sustentar.

Se você quiser aprender mais sobre criatividade e fotografia, tenho meu próprio framework baseado em tudo que li, aprendi e pratiquei – e você pode baixar o framework de fotografia criativa e usar de graça.

Acredito que todo fim pode ser um recomeço – e a fotografia atesta isso há mais de cem anos. Mas, caso você relute, ainda dá tempo de abrir aquela franquia de brigadeiros gourmet.

 

Referências:

1A Fotografia Como Documento Social, Gisele Freund

You Tomorrow – The future of humanity, gender, everyday life, careers, belongings and surroundings, Ian Person

Vai lá e Faz, Thiago Matos

PENSAR, SENTIR, VER – Percepção e Processo em Fotografia, Scott MacLeay

Poesia Visual – Um Guia para Inspiração e Criatividade Fotográfica, Chris Orwig

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